
A noite estava gelada, e quando digo gelada, digo-o no verdadeiro sentido da palavra: estavam 4ºC na rua.
Agasalhei-me o mais que pude, o cachecol, as luvas postas e o casaco mais grosso que consegui encontrar dentro do meu armário.
Eram 20h e 30m quando me foram buscar a casa. Conhecidos meus, amigos, se assim o posso dizer… Saí para o gelo da rua e preparei-me para a longa noite que me esperava. Eram incontáveis as dúvidas que surgiam no meu pensamento… O que me espera? O que irei encontrar? Como serão as pessoas? Será que me vão fazer mal? Será que vou aguentar fazer isto? E muitas mais iam surgindo…
Fomos até ao bairro de Alvalade buscar as carrinhas já equipadas com alguns cobertores para distribuir, com pacotes de leite e sandes, bolos, fruta, iogurtes, etc. embrulhados individualmente em sacos de papel. Entrámos todos para as carrinhas e pusemo-nos a caminho!
Tive a sorte de os meus amigos fazerem a volta há bastantes anos, assim como os outros voluntários que eu ainda não conhecia. Então aproveitei e, enquanto fazíamos a volta, eles iam-me explicando como funcionava a Comunidade, como tinha surgido e contaram-me inclusive várias histórias de momentos que já tinham experienciado enquanto voluntários na Comunidade, algumas comoventes, outras até engraçadas. E Então explicaram-me que as voltas estão organizadas em 3 zonas distintas de Lisboa, e por cada zona é responsável uma carrinha. São então 3 carrinhas a fazerem as voltas nocturnas e em cada uma delas seguem, em média, 5 a 6 voluntários. Para cada dia da semana está estabelecido um grupo. E esse grupo só volta a fazer a volta passadas duas semanas. No caso do grupo com que fui, eles fazem a volta Domingo sim, Domingo não, independentemente de ser natal, ano novo, ou outro feriado qualquer. Houve um ano em que lhes calhou a eles fazerem a volta na passagem do ano, e fizeram-na e dizem que até foi uma experiência interessante. Estes grupos de voluntários que andam a distribuir comida à noite aos sem-abrigo chamam-se as “Equipas de rua”.
(Novidade acabadinha de chegar: A partir de 18 de Janeiro passarão a ser 4 carrinhas. Irá abrir uma nova volta, noutra zona de Lisboa).
Nessa noite, houve alturas em que nem da carrinha fui capaz de sair. Pessoas que metiam tanta pena… Houve um Senhor que estava nu meio de um mato e segundo o que me disseram ele tinha Alzheimer e a mulher tinha-o posto fora de casa e ele não sabia onde estava. Estava em pé, no mesmo sítio a olhar para nós com ar confuso e a tremer imenso… Essa foi uma das situações em que não saí da carrinha, porque me fez muita confusão… Mas depois também encontrámos pessoas muito simpáticas que queriam conversar e nunca mais se calavam.
O engraçado nisto tudo é que os voluntários, por há tantos anos o fazerem (ah! E esqueci-me de referir que os voluntários fazem sempre a mesma volta, não andam a trocar com outros grupos) já conhecem os sem-abrigo pelo nome e o mesmo acontece com os sem-abrigo que conhecem os voluntários. Os sem-abrigo já sabem as horas a que os voluntários costumam chegar e onde costumam parar e já estão à espera deles.
As voltas também funcionam assim: É dada uma folha a cada carrinha, com os locais onde a Comunidade tem conhecimento que vivem sem-abrigo e faz-se a volta de acordo com esses pontos e vai-se colocando, nas folhas, as horas a que se entregou comida aos sem-abrigo e quantos sacos foram distribuídos. Quando se encontram sem-abrigo que não sejam um desses que a Comunidade tem conhecimento, obviamente que também se lhes dá de comer. Depois existem dois ou três locais onde a Comunidade costuma parar mesmo e ficar durante algum tempo, nomeadamente no Saldanha, no Rossio e noutra zona que não me recordo o nome. E depois os sem-abrigo vão lá ter e estão lá um pouco com os voluntários. Uma coisa curiosa, que eu achei engraçado, foi que os sem-abrigo têm garrafinhas (uns têm umas grandes, outros umas mais pequeninas) que é para que a Comunidade (que leva pacotes de leite) as encha para eles beberem depois.
Uma das coisas que me chocou muito também nessa noite foi ver rapazes da minha idade na rua. Fiquei espantada e aterrada. Não fazia ideia que rapazes da minha idade pudessem andar na rua… E ver pessoas a dormir na rua, apenas com a roupa que traziam no corpo (que não era muita) de cima de um pedaço de cartão. Sem um cobertor que as amparasse do frio.
Também, por esclarecimento de um voluntário fiquei a saber que nem todos aqueles sem-abrigo que encontrei naquela noite viviam na rua. Muitos deles tinham uma casa, mas não tinham como se sustentar e então recorriam à ajuda da Comunidade para sobreviver.
Foi uma experiência de voluntariado completamente diferente de todas as que já fiz, mas igualmente gratificante. Foi uma experiência que me deu imenso gosto, mas foi a experiência mais forte no sentido de viver de perto o sofrimento dos outros e isso tocou-me bastante. Foi uma experiência que deu também direito a um dia seguinte de cama, doente por causa do frio.
TatianaRomão


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