Entrevista de Kevin Barbieux (A vida de um sem-tecto)

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Ele mora nas ruas e abrigos há duas décadas. Casou, teve dois filhos, mas não conseguiu manter 'uma vida normal'. Barbieux desconfiou de Deus e perdeu a fé em si mesmo, mas foi salvo pelos livros e pela tecnologia. Agora usa o seu blog, que teve mais de 100 mil visitantes em menos de três meses, para 'legitimar os moradores de rua, pedir que sejam tratados como seres humanos, com compaixão, aceitação e assistência'.


ÉPOCA – Como foi parar à rua?
Kevin Barbieux – Em 1982, resolvi deixar a minha cidade, San Diego. Fui até onde o dinheiro deu, Nashville. Não consegui trabalho e passei a dormir no carro. Quando o frio ficou insuportável, procurei um dos abrigos da cidade para os sem-tecto.

ÉPOCA – Muitas pessoas ficam sem dinheiro e não vão morar na rua. Por que fez essa escolha?
Barbieux – Ninguém escolhe viver na rua. Para mim foi algo inevitável, porque tenho distúrbios de ansiedade e dificuldades de aprendizagem. Não possuo as condições necessárias para cuidar de mim mesmo e viver de forma independente.

ÉPOCA – Os seus pais não o ajudaram?
Barbieux – Eles têm tão pouco interesse quanto compreensão sobre a minha situação. Não são pessoas instruídas nem generosas. Ter sido criado por esse tipo de gente deve explicar parte do meu problema.

'A cultura hedonista dos Estados Unidos torna difícil uma pessoa como eu encontrar o seu lugar. É uma existência solitária. Não foi por isso que virei sem-tecto. Desenvolvi essa visão por causa da vida que levo.'

ÉPOCA – Voce já teve emprego?
Barbieux – Um dos últimos foi numa loja e restaurante. Havia tanta gente no ambiente que eu não conseguia controlar-me, ficava muito nervoso e aí tinha ataques de ansiedade. Transpirava e ficava sem ar, não conseguia falar. E aí ficava mais nervoso.

ÉPOCA – Como acha que os seus filhos lidam com sua condição?
Barbieux – Eles não sabem de nada. A minha ex-mulher evita qualquer tipo de assunto delicado, e essa é uma das razões pelas quais nos separámos.

ÉPOCA – Como voce começou no blogue?
Barbieux – Participo num fórum de discussão na internet sobre a cantora gospel Sarah Masen. Alguém mencionou os blogues e eu resolvi fazer o meu.

ÉPOCA – Com que objectivo?
Barbieux – Sempre fui lento a ler, mau em gramática. Eu acho-me inteligente, mas não pude desenvolver-me na rede pública de ensino. Então tomei para mim a tarefa de melhorar a minha compreensão do mundo e de superar minhas limitações, tornar-me mais sociável. Tentei fazer um jornal para os sem-tecto, que durou apenas dois números, o que despertou em mim o gosto pela escrita. Há alguns anos mantenho um diário pessoal. Num abrigo fiz um curso de um ano que me ajudou a ler melhor.

'Muita gente vê-me como uma grande ameaça, porque defendo os direitos de quem vive na rua e não têm acesso a nada. A minha simples existência contradiz a percepção de realidade dessas pessoas.'

ÉPOCA – O que é mais difícil de explicar?
Barbieux – As pessoas vêem o tema a preto e branco, mas há muitas nuances. Alguns acreditam que sem-tecto é quem mora na rua. Mas, se voce passa as noites num abrigo, aquilo é a sua casa? E se você mora de favor? Eu, por exemplo, às vezes durmo em abrigos, mas, quando não encontro vaga ou chego depois do horário, fico nas ruas.

ÉPOCA – Como é a vida na comunidade sem-tecto?
Barbieux – Aqui em Nashville ninguém morre de fome. A primeira coisa que as pessoas pensam em doar é comida, e outras necessidades nunca são atendidas. Por exemplo: os moradores de rua não têm acesso ao sistema de saúde pública porque não têm como comprovar residência. Deixei de receber remédios gratuitos por essa razão.

ÉPOCA – Há muitos drogados e alcoólatras?
Barbieux – Drogas são uma válvula de escape. Sair das ruas é uma empreitada difícil. A menos que a pessoa seja muito forte, vai recorrer ás drogas, e isso acaba inviabilizando o plano original. Quando há o chamado duplo diagnóstico, ou seja, a pessoa tem distúrbios mentais e é viciada, quase não há esperança. A vida resume-se a ficar doido a maior parte do tempo para não enfrentar a realidade.



ÉPOCA – Qual é a sua válvula de escape?
Barbieux – O computador, a leitura, exercitar o meu cérebro. Sinto que faço algo construtivo.

ÉPOCA – Hoje, quais são as principais questões relativas aos direitos dos sem-tecto nos Estados Unidos?
Barbieux – Assim como ocorreu com os negros americanos na década de 50, os sem-tecto precisam posicionar-se para que sejam respeitados pela população. Há muita gente que acha que homeless não tem nada a reivindicar.


ÉPOCA – Se voce pudesse ter uma vida fora das ruas, o que faria?
Barbieux – Pretendo estudar sociologia de qualquer jeito. Talvez o meu blog me ajude a conseguir uma bolsa. Seria um pecado não aproveitar as minhas experiências para beneficiar a todos.

ÉPOCA – O que seria preciso para tirar um sem-tecto das ruas?
Barbieux – Para mudar de vida, o morador de rua precisa ter conexões com o 'mundo real'. Então, a melhor coisa que alguém pode fazer por um sem-tecto é dar-lhe um pouco do seu tempo, ficar amigo. Eu nunca fui convidado para jantar na casa de ninguém ou para assistir a um jogo na TV.

Adaptado da revista Epoca

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